Se
compararmos um jogo de futebol actual com um jogo de futebol de há 30 anos
atrás, apercebemo-nos que existem diferenças enormes, o que, se analisarmos bem
as coisas, será normal, dado o crescimento e dimensão que o futebol tem actualmente.
Tais diferenças poderão, numa primeira análise, justificar-se pelos interesses
económicos que, hoje em dia, gravitam em torno do futebol, pela evolução que se
verificou nas metodologias de treino, até à análise exaustiva dos seus mais
ínfimos pormenores.
Porém,
quando olhamos para um jogo de futebol, o que mais me preocupa é a escassez de
talentos, pois é aqui que o futebol começa a perder a sua espetacularidade. Muitos
de vós perguntar-se-ão, neste momento, como poderá alguém dizer uma coisa destas,
numa era em que temos ao mesmo tempo um Messi e um Cristiano Ronaldo? A
resposta é simples: efectivamente, os adeptos de futebol foram abençoados por
terem a oportunidade de ver, na mesma década, dois futebolistas com este
talento. Porém, ao olharmos para as restantes equipas, deparamo-nos com um
fosso tremendo entre as mesmas e que nos seus planteis escasseia o talento
individual e o improviso, em particular no futebolista Europeu.
Na
nossa opinião, isto deve-se ao facto de, actualmente, as sociedades darem às
suas crianças um cada vez maior leque de possibilidades de brincadeiras e
diversões, muito diferente daquele que existia há anos atrás. Hoje as crianças
não brincam como antes: os videojogos e os computadores assumiram um papel de
tal forma importante, que as crianças deixaram de brincar com recurso ao seu
corpo, às suas capacidades motoras… O correr, o saltar e o inventar jogos foram
substituídos por uma cadeira confortável e um computador.
Lembro-me
de na minha infância passar os dias na rua a jogar à bola, sendo que tenho
consciência que este quadro seria igual em todo o país e por toda a Europa.
A
rua foi, durante muitos anos, “a mãe” dos melhores futebolistas do mundo, onde
os mesmos deram os primeiros toques na bola e onde as regras do jogo eram
ditadas por eles.
Ao
fazer uma pesquisa biográfica encontrei nos vários relatos de futebolistas como
Ronaldo, Maradona, Zidane, Pelé, Valdano, Ronaldinho Gaucho, entre outros, que
todos deram os seus primeiros passos futebolísticos na rua, sendo que todos
referem a importância que este inicio de “carreira” teve para eles na aquisição
de técnicas que mais tarde lhes viriam a ser muitíssimo importantes na
construção de das carreiras de sucesso que todos conhecemos.
Na
rua, não haviam regras, não havia árbitro, nem sequer treinador, mas havia bola
e horas livres… Estavam, assim, reunidas todas as condições para se assistir a
um “espetáculo” de bola.
O
futebol de rua foi e continua a ser muito importante, pois permite aos jovens
futebolistas desenvolver qualidades que de outra forma seria impossível. Na rua,
o pavimento é sempre diferente, desde terra batida, pavimentos em pedra,
cimento e alcatrão; A bola também varia no tamanho e na textura; O número de
jogadores não é fixo - normalmente jogam os que estiverem presentes; As balizas
são inexistentes, pelo menos no formato padrão. E este jogo, totalmente
anárquico, em que cada jogador quer a bola só para si e em que tem de fintar inúmeros
adversários para poder fazer golo, permite desenvolver habilidades técnicas que,
num contexto com treinador (um mau treinador), seria totalmente impossível,
pois este estaria, constantemente, a criticar os seus jogadores, exigindo que
os mesmos passassem a bola. Ora, este tipo de acções por parte dos treinadores
limita, em muito, a criatividade dos jovens futebolistas.
No
que toca ao desenvolvimento motor, a rua dota os jovens futebolistas de
aptidões que num contexto em que jogassem num bom relvado, ou num relvado sintético,
nunca iriam adquirir, pois o piso irregular e a variação da dimensão e textura
da bola, permitem desenvolver sinapses nervosas e escrever uma informação ao
nível neuro-muscular, que iria ser extremamente útil, pois, quando num jogo se
deparassem com uma situação em que têm de recorrer ao seu talento, fazem-no de
forma natural e inconsciente.
Como
refere Ronaldinho Gaucho, que, actualmente, é jogador do Atlético de Mineiro
(citado por Larcher, 2004): “No meu
bairro, em Porto Alegre, passei a infância a jogar à bola. Nunca me separava da
bola, driblava, driblava, driblava sem parar. Jogava na rua com os meus
colegas, mas também jogava horas sozinho ou com o meu cão. Em minha casa há
bolas por todo o lado. Aproveito todas as oportunidades para improvisar um
pequeno jogo no jardim ou para me descontrair a fazer habilidades. A bola é a
minha melhor companhia, é o objecto que mais amo na vida. Quando chove jogamos
com uma bola de ténis na sala. Na minha infância a minha mãe podia proibir-me
de quase tudo, inclusive de sair, mas nunca de jogar à bola”.
Como
todos sabemos, actualmente, as academias e as escolas de futebol vieram ocupar
um papel importante na formação dos jovens futebolistas. Porém, por muito
esforço e investimento que haja por parte dos seus gestores e treinadores,
nunca conseguirão reproduzir o futebol de rua na sua génese, nem retirar os
benefícios dai advenientes… Ainda que utilizem pisos e bolas com diferentes
texturas, balizas e campos reduzidos, haverá sempre de faltar coisas tão básicas
como o “instinto de sobrevivência” que os jovens adquirem ao jogar à bola na
rua, uma vez que, para alguns deles, fazerem carreira no futebol é a única forma
de subsistirem e levarem uma vida desafogada.
Ora,
é por todos estes motivos que acredito que os futebolistas de amanha –
principalmente os Europeus – serão tecnicamente evoluídos, muito inteligentes
ao nível da leitura de jogo e do ponto de vista táctico. Porém, a magia do
improviso, do arriscar nos confrontos de 1x1, será cada vez mais escasso à
medida que o “Futebol de Rua” for desaparecendo.
É a minha convicção, que o
melhor futebolista do mundo da próxima década nascerá em alguma favela do
Brasil ou da Argentina.
Se
compararmos um jogo de futebol actual com um jogo de futebol de há 30 anos
atrás, apercebemo-nos que existem diferenças enormes, o que, se analisarmos bem
as coisas, será normal, dado o crescimento e dimensão que o futebol tem actualmente.
Tais diferenças poderão, numa primeira análise, justificar-se pelos interesses
económicos que, hoje em dia, gravitam em torno do futebol, pela evolução que se
verificou nas metodologias de treino, até à análise exaustiva dos seus mais
ínfimos pormenores.
Porém,
quando olhamos para um jogo de futebol, o que mais me preocupa é a escassez de
talentos, pois é aqui que o futebol começa a perder a sua espetacularidade. Muitos
de vós perguntar-se-ão, neste momento, como poderá alguém dizer uma coisa destas,
numa era em que temos ao mesmo tempo um Messi e um Cristiano Ronaldo? A
resposta é simples: efectivamente, os adeptos de futebol foram abençoados por
terem a oportunidade de ver, na mesma década, dois futebolistas com este
talento. Porém, ao olharmos para as restantes equipas, deparamo-nos com um
fosso tremendo entre as mesmas e que nos seus planteis escasseia o talento
individual e o improviso, em particular no futebolista Europeu.
Na
nossa opinião, isto deve-se ao facto de, actualmente, as sociedades darem às
suas crianças um cada vez maior leque de possibilidades de brincadeiras e
diversões, muito diferente daquele que existia há anos atrás. Hoje as crianças
não brincam como antes: os videojogos e os computadores assumiram um papel de
tal forma importante, que as crianças deixaram de brincar com recurso ao seu
corpo, às suas capacidades motoras… O correr, o saltar e o inventar jogos foram
substituídos por uma cadeira confortável e um computador.
Lembro-me
de na minha infância passar os dias na rua a jogar à bola, sendo que tenho
consciência que este quadro seria igual em todo o país e por toda a Europa.
A
rua foi, durante muitos anos, “a mãe” dos melhores futebolistas do mundo, onde
os mesmos deram os primeiros toques na bola e onde as regras do jogo eram
ditadas por eles.
Ao
fazer uma pesquisa biográfica encontrei nos vários relatos de futebolistas como
Ronaldo, Maradona, Zidane, Pelé, Valdano, Ronaldinho Gaucho, entre outros, que
todos deram os seus primeiros passos futebolísticos na rua, sendo que todos
referem a importância que este inicio de “carreira” teve para eles na aquisição
de técnicas que mais tarde lhes viriam a ser muitíssimo importantes na
construção de das carreiras de sucesso que todos conhecemos.
Na
rua, não haviam regras, não havia árbitro, nem sequer treinador, mas havia bola
e horas livres… Estavam, assim, reunidas todas as condições para se assistir a
um “espetáculo” de bola.
O
futebol de rua foi e continua a ser muito importante, pois permite aos jovens
futebolistas desenvolver qualidades que de outra forma seria impossível. Na rua,
o pavimento é sempre diferente, desde terra batida, pavimentos em pedra,
cimento e alcatrão; A bola também varia no tamanho e na textura; O número de
jogadores não é fixo - normalmente jogam os que estiverem presentes; As balizas
são inexistentes, pelo menos no formato padrão. E este jogo, totalmente
anárquico, em que cada jogador quer a bola só para si e em que tem de fintar inúmeros
adversários para poder fazer golo, permite desenvolver habilidades técnicas que,
num contexto com treinador (um mau treinador), seria totalmente impossível,
pois este estaria, constantemente, a criticar os seus jogadores, exigindo que
os mesmos passassem a bola. Ora, este tipo de acções por parte dos treinadores
limita, em muito, a criatividade dos jovens futebolistas.
No
que toca ao desenvolvimento motor, a rua dota os jovens futebolistas de
aptidões que num contexto em que jogassem num bom relvado, ou num relvado sintético,
nunca iriam adquirir, pois o piso irregular e a variação da dimensão e textura
da bola, permitem desenvolver sinapses nervosas e escrever uma informação ao
nível neuro-muscular, que iria ser extremamente útil, pois, quando num jogo se
deparassem com uma situação em que têm de recorrer ao seu talento, fazem-no de
forma natural e inconsciente.
Como
refere Ronaldinho Gaucho, que, actualmente, é jogador do Atlético de Mineiro
(citado por Larcher, 2004): “No meu
bairro, em Porto Alegre, passei a infância a jogar à bola. Nunca me separava da
bola, driblava, driblava, driblava sem parar. Jogava na rua com os meus
colegas, mas também jogava horas sozinho ou com o meu cão. Em minha casa há
bolas por todo o lado. Aproveito todas as oportunidades para improvisar um
pequeno jogo no jardim ou para me descontrair a fazer habilidades. A bola é a
minha melhor companhia, é o objecto que mais amo na vida. Quando chove jogamos
com uma bola de ténis na sala. Na minha infância a minha mãe podia proibir-me
de quase tudo, inclusive de sair, mas nunca de jogar à bola”.
Como
todos sabemos, actualmente, as academias e as escolas de futebol vieram ocupar
um papel importante na formação dos jovens futebolistas. Porém, por muito
esforço e investimento que haja por parte dos seus gestores e treinadores,
nunca conseguirão reproduzir o futebol de rua na sua génese, nem retirar os
benefícios dai advenientes… Ainda que utilizem pisos e bolas com diferentes
texturas, balizas e campos reduzidos, haverá sempre de faltar coisas tão básicas
como o “instinto de sobrevivência” que os jovens adquirem ao jogar à bola na
rua, uma vez que, para alguns deles, fazerem carreira no futebol é a única forma
de subsistirem e levarem uma vida desafogada.
Ora,
é por todos estes motivos que acredito que os futebolistas de amanha –
principalmente os Europeus – serão tecnicamente evoluídos, muito inteligentes
ao nível da leitura de jogo e do ponto de vista táctico. Porém, a magia do
improviso, do arriscar nos confrontos de 1x1, será cada vez mais escasso à
medida que o “Futebol de Rua” for desaparecendo.
É a minha convicção, que o
melhor futebolista do mundo da próxima década nascerá em alguma favela do
Brasil ou da Argentina.
